Marechal
- Quem te fez essa corcunda? Preto velho, me conta sua história?
E o preto velho, Marechal, começou:
- Foi a vida. Foi a escravidão, Sinhô. Em 1910 eu era marinheiro, cabra da peste, negro decidido.
João Cândido pôs fogo no meu sangue e meu sangue ferveu, engruvinhou na panela da Revolução. Mas, nós, os negros não temos escola, temos coração.
E os brancos, os homens de cartola traíram os negros com palavras bonitas que aprenderam na escola. Depois disso nós ficamos como palha seca na balança da vida: pesando nada. Uma noite... mistério? reza? ... não sei... As correntes cederam e o cabra da peste caiu na água. Nadei... nadei... Despois... despois... A história é comprida...
E o preto velho me bateu no ombro, pôs um pedaço de fumo na boca, sorriu... gargalhou... e saiu arrastando os chinelos na calçada.
A história é comprida ... .

